SQPills: Design de Produto em 2026 ↩
As SQPills são pílulas de conhecimento produzidas pelo time da Squadra, com o objetivo de compartilhar experiências reais, aprendizados práticos e reflexões sobre o mercado.
Nesta edição, o João Araguaia Abramo Garcia, Product Designer, que participou do Carreiras que Inspiram trazendo não só sua trajetória, mas uma leitura importante sobre o momento atual do design, em que a área parece estar sendo constantemente tensionada pelas novas tecnologias, especialmente pela inteligência artificial.
Design X IA ↩
Existe hoje uma sensação quase inevitável de que o design está sendo “engolido” pela IA. Ferramentas que geram telas, sugerem fluxos e automatizam etapas inteiras do processo criativo reforçam essa percepção. Mas, na prática, o que está acontecendo é menos sobre substituição e mais sobre deslocamento de responsabilidade. A IA não elimina o designer, ela transforma parte da execução.
Se antes o diferencial estava muito associado à capacidade de produzir interfaces, agora ele se desloca para algo mais complexo: a capacidade de decidir bem. Decidir o que vale ser feito, o que não vale, para quem aquilo faz sentido e sob quais condições. Porque nenhuma ferramenta, por mais avançada que seja, consegue interpretar contexto e priorizar com base em impacto. Nesse cenário, o design deixa de ser uma camada visual e passa a ocupar um papel ainda mais estratégico.
UX, UI e Design de Produto na prática ↩
Essa mudança ajuda a esclarecer uma confusão comum entre UX, UI e Design de Produto.
- UX está relacionado à investigação, entender comportamento, mapear jornadas, identificar fricções e validar hipóteses.
- UI, por sua vez, materializa essas decisões em interface, organizando informação, criando hierarquia e garantindo que a experiência seja compreensível e acessível.
- Design de Produto conecta tudo isso ao negócio e à tecnologia, garantindo que aquilo que está sendo construído não apenas funcione, mas faça sentido dentro de um contexto maior.
É justamente nesse ponto que entra um dos conceitos mais fortes: o de empatia radical. Diferente de uma empatia superficial, baseada apenas em ouvir o usuário, essa abordagem exige um nível mais profundo de interpretação. Usuários nem sempre conseguem explicar o que sentem, muito menos estruturar seus próprios problemas. Muitas vezes, o que eles dizem entra em conflito com o que fazem. É nesse espaço, entre discurso e comportamento, que o designer atua.
Empatia radical, portanto, é uma ferramenta de investigação que permite identificar o problema real. E isso muda completamente a qualidade das soluções, porque evita que o time caia na armadilha mais comum do desenvolvimento de produtos: resolver rápido a coisa errada.
Para evitar esse tipo de erro, estruturas como o Duplo Diamante continuam sendo relevantes, não como um processo engessado, mas como uma forma de disciplinar o pensamento. Em produto, errar faz parte. O problema não é o erro em si, mas a velocidade com que ele é escalado quando não há validação suficiente.
Design como estratégia de negócio ↩
O designer deixa de ser quem “entrega” e passa a ser quem articula, conecta pontos e ajuda o time a tomar decisões melhores.
É aqui que entram dados e comunicação, eles ajudam a tirar decisões do campo da opinião, sendo corretamente interpretados e comunicados. Por isso, habilidades como argumentação, negociação e clareza de raciocínio deixaram de ser complementares e passaram a ser centrais para quem atua com produto.
Quando tudo isso se conecta, o impacto no negócio deixa de ser abstrato e aparece em forma de menos erros, menos atritos, mais conversão e maior retenção. Não porque o design “encantou”, mas porque ele resolveu melhor.
É por isso que tratar design como custo ainda é um dos equívocos mais comuns dentro das empresas. Um design bem feito é parte da engrenagem que faz o produto funcionar.
No fim, a principal provocação que fica dessa conversa é: o trabalho do designer não é mais criar interface. É garantir que, em meio a pressões de prazo, negócio e tecnologia, a decisão tomada continue fazendo sentido para quem está do outro lado.